Crítica de Cinema: Wall Street - O Dinheiro Nunca Dorme

Posted by Programa Enter

Por: Ronaldo D'Arcadia


A ganância é uma coisa boa? A questão é relevante, pois afinal é ela (a ganância) que faz o governo de um país ir atrás de melhorias para seu povo, que faz o homem comum evoluir como ser humano, que incentiva você a não ficar parado no mesmo lugar. O problema maior é a linha tênue entre a ganância e a falta de ética e moral, duas virtudes que parecem não existir na cartilha dos investidores milionários.

Quem já assistiu “Wall Street: Poder e Cobiça”, viu uma das melhores atuações de Michael Douglas, que na época levou o Oscar para casa. O personagem Gordon Gekko é ironicamente cativante, com sua índole desprezível e sua lábia sociopata. Mas ele pagou o preço por suas fraudes e lavagens de dinheiro, e acabou preso, servindo de exemplo para os capitalistas selvagens que transitam em seus helicópteros por Nova York. Apenas em 2001 ele foi solto, sem muito dinheiro no bolso, barba por fazer, e um celular último modelo de 1987, pesando dois quilos no mínimo.

Avançando no tempo, mas precisamente em 2008, somos apresentados a Jake Moore (Shia Labeouf), jovem estereótipo de Wall Street, que apesar de sua vontade de fazer fortuna, é um idealista dos investimentos em energia limpa e sustentável, atitude que talvez seja o único motivo plausível do envolvimento com Winnie (Carey Mulligan), filha de Gekko, que despreza o pai e tudo que o rodeia. Ela, também uma idealista, trabalha fortemente com seu site ativista, divulgando verdades inconvenientes mundo afora.

Jake trabalha apostando em mercados financeiros na renomada Keller Zabel, que aparentemente passa por uma crise. Como o mercado não aposta em investimentos ”aparentemente” confiáveis, o preço das ações da empresa despenca, e Lois Zabel (Frank Langella), que comanda toda a bagunça, se reuni com o Banco Central Americano para tentar manter-se em pé. Dentro de um meio movido por interesses e rinchas antigas, Zabel é praticamente apunhalado na reunião, tendo sua empresa comprada por seu inimigo Bretton James (Josh Brolin), do banco de investimentos Churcill Schwartz, a preço de banana.

Gekko sabe tudo que se passa por trás da economia, entre problemas e falcatruas, apunhaladas e chantagens, e Jake, como pupilo de Zabel, quer ir a fundo no assunto e descobrir o que aconteceu realmente. Ele então se aproxima do sogro em busca de “consultoria”, e em troca promete tentar aproximar Gekko de sua filha. Uma troca “aparentemente” segura.

Entre muitas informações que estouram como “bolhas”, “Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme” é um bom filme. Usando como pano de fundo toda a agressividade velada de Wall Street, o roteiro conta a história de um homem que busca sua redenção, tentando voltar aos negócios e se aproximar de sua única filha, que o odeia e o culpa pela morte do irmão, viciado em drogas. É claro que Gekko mudou, mas não o suficiente, para nosso alívio.

Oliver Stone dirige esta sequência com muita atenção aos detalhes, fazendo ligações diretas ao seu primeiro filme, fato que pode ser observado já na abertura dos créditos. O destaque vai com certeza para a edição contemporânea e criativa, que traz os colossais prédios de Nova York formando gráficos financeiros, e por ai vai. Utilizando do humor de forma inteligente, a obra também é recheada de referências, como a participação de Bud Fox, interpretado por Charlie Sheen. Só de aparecer o público já cai na gargalhada, pois o ator mais parece estar a caminho de filmar algum episódio de “Two And a Half Man”, com um sorriso sacana no rosto, acompanhado de duas lindas garotas.

Um dos pontos que deixa a desejar é o drama entre o pai Gekko e a filha Winnie. Carey Mulligan, que já provou ser uma excelente atriz com sua interpretação em “Educação”, parece meio desconfortável no papel da ressentida filha, que hora odeia, hora se rende facilmente aos argumentos do pai, sendo que no final sua personalidade parece forçada, e seu texto também não ajuda. O resto do elenco se sai bem melhor. Shia Labeouf, que ainda paga o preço de ter vendido sua alma ao Michael Bay, é um bom ator, que trabalha com humildade seu Jake Moore, não entregando um rapaz onisciente e arrogante, inteligente sim, mais ainda com muito a apreender. Michael Douglas não consegue repetir o êxito total de seu primeiro Gekko, mas com um personagem desses fica difícil errar. Talvez Douglas tenha ficado menos inescrupuloso com o passar dos anos, assim como seu personagem, mas no geral, suas tramóias continuam dignas de mestre. Temos ainda Josh Brolin como Bretton James. O ator, que já trabalhou com Stone em “W.” (obra que ainda não deu as caras no Brasil), está muito bem e mostra confiança como um perfeito cretino engravatado. Destaque para Frank Langella com sua pequena e excelente participação como Lois Zabel. Susan Sarandon também aparece como a mãe de Jake, mas sua personagem acaba sendo pouquíssima explorada.

“Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme” não supera seu antecessor, mas funciona. Com uma trama elaborada - que traz a bolha financeira como personagem importante-, o filme derrapa no drama, mas convence na dinâmica e fluidez da trama geral. Com boas interpretações, uma direção segura e edição competente, a obra agrada a todos, e é um prato cheio aos interessados pelo tema. A ganância é uma coisa boa? Assista e tire suas conclusões.

O mundo dos investimentos não teria a menor graça sem Gordon Gekko.

Crítica de Cinema: Batalha por T.E.R.A

Posted by Programa Enter

Por: Ronaldo D'Arcadia



Depois de três anos de sua estréia, “Batalha por T.E.R.A” chega ao Brasil em 3D.
Toda animação precisa ter bem definido seu público alvo, para assim não correr os riscos de um empreendimento sem identidade certa. Esta falta de direcionamento é um dos problemas da animação “Batalha por T.E.R.A”, do diretor canadense Aristomenis Tsirbas. Mas apesar dos evidentes erros, o filme acaba chamado a atenção.


A história se passa em um futuro onde nosso planeta Terra pereceu. Após drenar todos os recursos naturais disponíveis, a raça humana entrou em guerra e o resultado foi à destruição total. Vagando pelo universo em busca de um lugar para recomeçar, os sobreviventes se deparam com o planeta T.E.R.A, onde esta nova existência seria possível. No local vive uma raça harmoniosa e pacífica, que através de sua religião convive em paz com o universo, por assim dizer. Claramente que os humanos, para lutar pela continuidade de sua raça, chegaram sem pedir licença, tentando realizar uma colonização violenta.
Em meio a uma batalha inicial, o soldado Jim Stanton acaba sofrendo um acidente com sua nave de ataque e é socorrido pela bondosa (e cheia de personalidade) Mala, habitante daquele planeta. O pai de Mala foi capturado pelos humanos e sua esperança é que Jim ajude a encontrá-lo. Percebendo a índole pacífica de sua salvadora, e consequentemente de seu povo, o soldado começa a enxergar que a dominação por meio da força imposta pelos humanos está errada, e isso muda tudo para ele.


Podemos notar que o roteiro não traz nada de novo. A relação forasteiro que se afeiçoa pelo inimigo é então trabalhada como tema principal. Mas apesar de batido, este epicentro da trama acaba se desenrolando de forma muito natural, sendo que no final a relação de amizade entre Jim e Mala acaba salvando todo o filme. Trabalhando com mais coesão o drama e apenas flertando com o humor, a história aborda de forma eficaz a ignorância da guerra, mostrando com situações extremas que as escolhas em um campo de batalha sempre são injustas quando conhecemos os dois lados da moeda. O soldado Jim só tinha em mente os amigos que morrerão em acidentes de sua nave mãe, que estava velha e perigosamente instável com o passar dos muitos anos de viagem pelo universo, mas depois de conhecer Mala, suas necessidades acabaram se mostrando não maiores do que as dela.



Com uma proposta aparentemente focada nos mais jovens, o filme pode não agradar tanto, devido ao conteúdo dramático, assim como pode espantar alguns adultos que buscam animações com mais requinte visual. E o requinte visual realmente deixa a desejar. O planeta T.E.R.A é terrivelmente desprovido de beleza, sendo basicamente uma nuvem espessa de onde saem grandes espécies de troncos, que servem de casa para os habitantes. Sem cor e sem graça, o local não cativa, em nenhum momento, uma espécie de apego. Os habitantes do planeta seguem a mesma linha, parecendo bonecos de massa mal acabados. Já os humanos são um pouco mais trabalhados, mas o aspecto plástico e a falta de detalhes são evidentes. A qualidade técnica não é necessariamente fator crucial para um filme ser bom, mas se tratando de uma animação, e comparando o que vem sendo feito por outros estúdios na área, realmente ficam claras as limitações. Temos algumas boas sequências, como a nave de Jim disparando seus foguetes em slow com uma bonita luz por trás, mas no geral, o aspecto visual não é o maior atrativo. Nem mesmo o 3D salva, sendo explorado de forma irrisória.
A dublagem nacional é decente e consegue captar bem o sentimento de seus personagens. No time dos dubladores originais temos nomes famosos como Brian Cox dando vida ao vilão implacável do longa, o General Hemmer, Evan Rachel Wood como a já citada heroína de ocasião Mala, Luke Wilson como o corajoso Jim Stanton. Temos ainda nomes como Ron Perlman, Dennis Quaid, Danny Trejo, Justin Long, Amanda Peet, Chris Evans e Danny Glover.
Possuindo uma espécie de charme “Star Trek”, abordando os costumes e características de novas raças, e apresentando detalhes inovadores – que não vem ao caso citar – da aniquilação da Terra, o filme possui seu carisma, só que ao mesmo tempo esbarra nos problemas técnicos e de criação já citados. Apesar da trama comum, o texto acaba trabalhando bem a relação dos personagens principais, explorando de forma humilde e positiva uma mensagem de tolerância. Começando de forma arrastada, engrenando no segundo ato e finalizando de maneira muito interessante, “Batalha por T.E.R.A” poderia ser melhor estruturado, mas passa sua mensagem.

Crítica de Cinema: Resident Evil - Recomeço

Posted by Programa Enter

Por: Ronaldo D'Arcadia

O primeiro filme ruim em IMAX 3D a gente nunca esquece. Quando todos pensavam que com “Resident Evil: A Extinção” a franquia teria um fim, eis que surge o “recomeço”.


Paul WS. Anderson é cara do “quase lá”. Tirando a ofensa que é o primeiro “Alien vs. Predador”, seus outros filmes “quase” foram aceitáveis, como o recente “Corrida Mortal”, “O Soldado do Futuro”, o campeão da sessão da tarde “Mortal Kombat”, ou mesmo o seu “quase” maior êxito, “Resident Evil: O Hóspede Maldito”.
Tendo escrito e produzido os três primeiros filmes da franquia “Resident Evil”, e dirigido apenas o primeiro, ele agora volta para a cadeira de diretor neste “Recomeço”, mas novamente falha na sua intenção de rodar um bom longa metragem de ação.


A história começa com estilo, créditos maneiros, atenção na produção e edição. Vem então uma bonita cena em slow motion (afinal, o que fica ruim em slow motion?) com um take de um ângulo superior, o famoso plongê, onde podemos avistar diversos guarda-chuvas transitando ao redor de uma menina que chora imóvel sob a água. Bem, depois de quase vomitar na cabeça do colega crítico da frente devido a uma infinidade de zoom in e zoom out rodopiantes em torno do globo, se inicia um tiroteio tão insano, que, confesso ter ficado feliz de sair vivo dele.
Anderson confirma então sua mediocridade como roteirista, apresentando um fiapo de história lamentável. Tudo gira em torno da vontade de Alice encontrar sobreviventes e fugir da corporação Umbrella, que a persegue devido seu valioso DNA. Seguindo os fatos já citados no filme anterior, ela parte atrás de um local chamado Arcadia (boa escolha de nome), que manda sinais por rádio oferecendo abrigo e ajuda. Após voar para o Alasca, não achar nada e dar com os burros em água fria, ela descobre que o lugar na verdade é um navio. Por fim, ela sai voando pelo mundo e acaba aterrissando seu teco-teco no teto de um presídio onde existem sobreviventes, e de lá avistam o Arcadia ancorado próximo a orla. Eles precisam então descobrir um jeito de chegar até seu estimado destino, e para isso terão de matar milhões de zumbis. Mas adivinhem, nem tudo é o que diz ser.


Com uma direção supostamente arrojada, com seu IMAX 3D imponente, o filme até traz algumas sequências interessantes de se ver, com muitos efeitos especiais e elementos “Matrix” para deixar tudo “cool”, mas com um andamento tão precário, um texto simplesmente ruim e interpretações no piloto automático, tudo se perde e acaba parecendo um vídeo clipe gigante. Outra falha gritante é a limpeza e a beleza de seus personagens, onde, em meio ao fim do mundo, mulheres estão sempre lindas e produzidas com cortes de cabelo de Hollywood, e os homens com suas barbas estilizadas, perfeitamente alinhadas. Uma falta de noção que beira o egocentrismo.


Milla Jovovich, que não emplaca um bom filme desde “O Quinto Elemento”, está apática e sonolenta como a heroína da fita. Sua função principal é primeiramente contar tudo que está acontecendo por meio de diálogos em voice-over, e depois matar hordas de zumbis fazendo cara de capa de revista. O elenco de apoio também aparece perdido, sem saber da onde veio e para onde vai. Wentworth Miller, do seriado “Prison Break”, até que tenta dar uma amenizada no clima com seu Chris Redfield, mas não há talento que salve a falta de atenção com que os personagens foram construídos, meros estereótipos prontos para serem mortos. Mesmo o vilão Albert Weske – que está muito parecido com o vilão do game -, interpretado por Shawn Roberts, está canastrão e pouco convincente.



O fator “game” ainda salvou a pontuação final deste filme. Apesar de reinventar praticamente toda a história, o diretor Anderson teve a atenção de colocar referências do último jogo da franquia, “Resident Evil 5”. Temos o carrasco enorme e seu machado descomunal, zumbis com bocas deformadas que mais parecem plantas carnívoras, cachorros do inferno que se abrem ao meio se transformando em uma boca só, e o já citado vilão Weske, que está muito parecido com o original. Chris também não foi esquecido, apesar de sua passagem ser decepcionante, como também já foi citado.
Mesmo colocando estes elementos, no final “Resident Evil: Recomeço” não honra a tradição do game que um dia teve a pretensão de adaptar. O clima de desespero e nervosismo simplesmente não existe. Parece que apenas as cenas de ação receberam algum tipo de atenção dos produtores, que esqueceram o primordial para tudo funcionar bem: uma história bem contada, coisa que o jogo faz sem dificuldade. Resumindo, a obra é um espetáculo de baboseiras com um roteiro pífio e apenas uma idéia na cabeça, levantar mais grana. Com a bilheteria que fez o próximo já está praticamente confirmado.


Crítica de Cinema: A Ressaca

Posted by Programa Enter

por: Ronaldo D'Arcadia

Este não é o filme em que quatro caras saem para uma despedida de solteiro e perdem o noivo. Neste filme quatro caras descobrem uma banheira do tempo, que os leva de volta para os anos 80.

Os amigos Adam, Nick, Lou e o agregado Jacob não passam por bons momentos. Adam (John Cusak) acabou de romper com a namorada de forma desastrosa e está infeliz com sua vida e trabalho. Nick (Craig Robinson), que antes era um cantor que prometia muito, agora trabalha em um pet shop cuidando de problemas indigestos de cachorros. Lou (Rob Corddry) sempre foi um lunático, que de tanto beber acaba quase cometendo um duvidoso suicídio. Jacob (Clark Duke) é o jovem sobrinho de Adam, ele vive enfurnado no porão de casa curtindo a vida intensamente em seu “Second Life”.

Todos estavam na pior quando resolveram se reunir depois de muito tempo (incentivados pelo possível suicídio de Lou) para lembrar os gloriosos momentos do passado vividos na pequena Kodiak Valley, uma cidadezinha coberta pela neve e ótima para esquiar e se drogar aos montes, pelo menos era, para eles. Jacob, mesmo não tendo participado dessas aventuras todas, vai à tira colo, meio a contra gosto.

Ao chegarem, percebem que o local já não é o mesmo. Lojas e boates fechadas, tudo esquecido e jogado as traças. Mesmo assim eles se hospedam no mesmo quarto de muitos anos atrás, e apesar do desanimo parecer reinar entre eles, uma linda banheira aparece reluzente e borbulhenta, e todos se jogam nela, onde passam a noite bebendo para valer, principalmente um tipo de energético ilegal da Rússia, idéia de Lou.

Sem muitas explicações eles voltam no tempo, mas precisamente aos anos oitenta, e assustados com a realidade alternativa em que se meteram, bolam um plano para voltar para casa são e salvos: seguir passo a passo a linha do tempo, para assim não mudar nada no futuro. O dia do passado em que eles voltaram é exatamente o dia em que eles viveram lá suas gloriosas juventudes, e apesar de se enxergaram como velhos, para o resto das pessoas do passado eles estão novinhos em folha, ou seja, não existem outros deles, eles assumiram seus lugares no espaço tempo, sendo Jacob o único que ainda não existia naquela época.

“A Ressaca” começa relativamente bem, apresentando seus personagens e seus dilemas. Apoiados por um elenco de qualidade, o texto funciona e diverte, prendendo sua atenção no início. A cena em que eles descobrem estar no passado é hilária, uma coleção de referências aos anos 80, talvez a década mais cafona de todas. Até mesmo a esquecida banda de glam rock Poison, uma das mais afeminadas da história, é fortemente lembrada no filme. Tudo isso acaba dando um toque de classe para a obra, e a produção do filme se destaca com seus figurinos, sua trilha sonora temática e a construção de uma época perdida, pelo menos inicialmente.

Infelizmente o interesse acaba aí, pois o roteiro se mostra muito deficiente e previsível, fazendo tudo ir por água abaixo. Primeiramente a motivação dos personagens é tão fraca que realmente não faz o mínimo sentido, pois afinal, tirando Jacob, todos têm a chance de viver suas vidas de novo, acertar onde erraram e ganhar mais vinte e poucos anos de vida, por que eles iriam querer voltar para suas vidas fracassadas?

Outro fator que tenta ser trabalhado é a relação de amizades entre eles, que estava enfraquecida pela vida e suas reviravoltas. Eles já não se consideravam tão amigos como antes, e procuravam entender o porquê disso. Apesar da tentativa esperta, o contexto não é explorado de forma satisfatória, ficando renegado a um subdrama sem profundidade e qualidade. O humor não é dos piores, mas o estilo “SuperBad” de ser precisa de elementos interessantes para fazer sua história rolar, e não apenas empurrar com a barriga tudo e todos a sua frente, inventando vilões descartáveis e soluções instantâneas para seus problemas. Até mesmo o sentimento de passado se perde em certos momentos, como se apenas as pessoas vestirem verde, amarelo e azul bastassem para simbolizar o período. Para tentar segurar essa onda, inúmeras referencias dos tempos moderno são citadas, mas não produzem o efeito esperado devido à forma capenga em que são jogadas na história, com exceção da cena onde Nick canta um hit moderno para o público.

No final, “A Ressaca” é mais perda de tempo do que diversão. Explorando de forma precária a viagem no tempo, o filme tenta ser engraçado de forma forçada, dramático de maneira resumida. O melhor fica para os créditos finais ao som de Mötley Crüe (talvez o momento mais oitentista do filme) e alguns personagens que passam despercebidos, como Phil, interpretado pelo esquisito Crispin Glover, e o “The Repairman” (ou o cara que conserta) vivido pelo icônico Chevy Chase. O time principal, liderado por Cusak, tem seus momentos, mas infelizmente se perde no descompasso da obra. A única pergunta que fica é: como o titulo original “Hot Tube Time Machine” virou “A Ressaca”?

Crítica de Cinema: [Rec]2 - Possuídos

Posted by Programa Enter

Por: Ronaldo D'Arcadia

Com câmera tremida e muito sangue, “[Rec] 2 – Possuídos” tenta repetir o sucesso de 2007, mas falha mortalmente.

Quando “[Rec]” estreou nos cinemas em 2007, todos se surpreenderam com a criatividade da proposta oferecida pelos diretores e roteiristas Jaume Balagueró e Paco Plaza. Fazendo a câmera realmente existir na realidade do filme, fomos apresentados a uma equipe de televisão que realizava uma matéria sobre o dia a dia dos bombeiros. Em uma chamada de emergência, tarde da noite, os mesmos se deparam com algo muito estranho: pessoas que pareciam animais raivosos, que atacavam sem a menor explicação. Isolados neste edifício, eles buscavam uma forma de sair dali com vida, mas sempre registrando tudo que estava acontecendo.

Três anos depois, com mais dinheiro e mais visibilidade, “[Rec] 2 – Possuídos” volta ao mesmo prédio, praticamente momentos depois do término do primeiro filme. Agora quem está filmando é a própria equipe da policia, que levou um cinegrafista para acompanhá-los. O local está em quarentena, ninguém entra e nem sai, apenas eles seriam a exceção, para averiguar o que estava acontecendo de fato. Juntos a eles estava Dr. Owen, principal responsável pela entrada do grupo no prédio. Depois de trombar com os humanos insanos, eles se perguntam por que diabos estavam ali. É aí que Dr. Owen revela que existem muitos outros fatores por trás desta incursão ao lugar inóspito, e que essas pessoas podem estar mais do que infectadas com alguma doença, elas podem estar possuídas, como avisa o título.

“[Rec]” não foi o primeiro filme a explorar este conceito de videomaker no sufoco. Devemos lembrar que muito antes disso “A Bruxa de Blair” já havia enganado muita gente devida sua inusitada câmera de mão. Vamos dizer então que o filme de Balagueró e Plaza levou o conceito para um novo nível, modernizando e deixando tudo muito mais atraente. Mesmo J.J Abrams, aparentemente inspirado, flertou com o formato, produzindo em 2008 seu “Cloverfield - Monstro”. Mas apesar de todo o sucesso, o segundo filme da série realmente foi uma decepção por dois motivos: primeiramente, errou em situações onde havia acertado antes, e depois, não apresentou nada novo.

Um dos pontos mais falhos é com certeza a construção das cenas. Aparentemente espontâneas, sequencias de tom documental devem ser milimetricamente elaboradas (Green Grass que o diga) senão tudo perde o encanto. Neste segundo filme, os diretores investiram nos sustos e esqueceram a agonia do suspense de suas tomadas. Apesar de alguns momentos horripilantes, a obra não consegue explorar aquela áurea de desespero de seu antecessor. Além disso, a câmera realiza movimentos improváveis, pois, qual é a reação de uma pessoa que está filmando uma briga? Em 99,9% dos casos ela se afasta para pegar a cena inteira. Já no filme, o cinegrafista parece ficar dando pulos de encontro aos possuídos, um vai e vem que faz tudo virar uma anarquia geral, sempre envolta em gritos, grunhidos e rostos demoníacos que aparecem de relance, e só lembrando, quem está filmando não é um amador. E a falta de criatividade perdura o filme todo, até mesmo o elemento “a câmera caiu no chão”, obrigatório nessas ocasiões, é repetido muitas vezes e perde o charme.

Outro fator que também não ajuda em nada são os atores antipáticos e limitados. Renegados a tentarem simular desespero, eles mais parecem estar em uma novela mexicana do que um filme de suspense, a não ser pelos inúmeros palavrões proferidos. Mesmo a eficiente Manuela Velasco, que estava incrível no primeiro longa como a repórter Ángela Vidal, neste parece desconfortável com o roteiro precário que se baseia apenas em fazer cara de desesperada e desferir xingamentos para enfatizar sua vontade de sair do local.

No segundo ato temos ainda a aparição de alguns personagens que invadem a área restrita, sendo eles um grupo de adolescentes, um bombeiro e um morador. O único que possui uma motivação que não beira o ridículo é o morador, que vai atrás de seus familiares, já o bombeiro e os garotos, simplesmente não compensa comentar aqui as razões de suas entradas, e nem a facilidade do ato. São os famosos bois de piranhas, que estão ali para serviram de aperitivo.

Com um desfecho fraquíssimo, “[Rec] 2 – Possuídos” explica demais e agrada de menos. Interpretações fajutas e reciclagens de cenas, agora mais confusas e mal elaboradas, comprometem toda a história. É curioso analisarmos como duas obras geneticamente parecidas podem ter um resultado final tão diferente.

Crítica de Cinema: O Último Mestre do Ar

Posted by Programa Enter

Por: Ronaldo D'Arcadia

Seria este filme uma obra mal compreendida ou uma homenagem apenas para os fãs? O certo é que “O Último Mestre do Ar” não satisfaz nem gregos e nem troianos.



M. Night Shymalan é o próprio mistério. Quando surgiu com “Sexto Sentido” foi glorificado como mestre do cinema, e sua obra copiada maciçamente a ponto de sua premissa se tornar um clichê a ser esquecido. Logo após veio “Corpo Fechado”, considerado por muitos, um dos melhores filmes de heróis já feito, e realmente na época esta linguagem “Alan Moore” de ser dos super poderosos nem vislumbrava a luz do sol em Hollywood. Após “Sinais” e “A Vila” as coisas ficaram meio estranhas. Apesar dos roteiros forçados e deficientes (roteiros que eram sua arma letal), o indiano revelação sempre teve uma ótima mão na direção, trabalhando muito bem o suspense e direcionando de forma correta seus atores. Depois vieram os péssimos “A Dama na Água” e “Fim dos Tempos”, fracassos retumbantes de bilheteria que colocaram a carreira do diretor em uma espécie de torpor, da onde todos esperamos que ele desperte. Infelizmente ainda não aconteceu.

Em seu novo filme, Shymalan, guiado pelo entusiasmo de suas filhas, resolveu adaptar (algo inédito em sua carreira de diretor) o desenho animado “Avatar: The Last Airbender”, exibido pela Nickelodeon desde 2005. A série conta a história de Aang, um garoto mestre do ar que precisa amadurecer logo, pois ele é o profetizado Avatar, um ser de habilidades extraordinárias e o único capaz de controlar todos os elementos: Ar, Água, Terra e Fogo. Após cem anos de sua ausência, seu mundo encontra-se em guerra, e Aang tem de trazer novamente o equilíbrio entre os povos, finalizando assim o conflito iniciado pela Nação do Fogo. Acompanhado por seus amigos de jornada, os irmãos Katara e Sokka, e os engraçados Appa e Momo (um bisão gigante voador e um lêmure orelhudo também voador), o jovem Avatar terá de apreender a domar seus poderes e também seus sentimentos, e para isso precisa encontrar professores a altura de seu aprendizado.

A concepção do filme é uma trilogia, assim como a série original, divida em três temporadas, sendo intituladas como “Livro Um: Água”, “Livro Dois: Terra” e “Livro Três: Fogo”. No primeiro capítulo Aang deve aprender a dominar totalmente o elemento água, e parte em busca de um mestre na Tribo da Água do Norte. Esta é a história que Shymalan conta em seu filme.

Apresentando com fidelidade diversos momentos do desenho – como a bela abertura, milimetricamente reproduzida -, o diretor e roteirista acerta em muitas escolhas na hora de transferir a obra para um novo meio, mas erra em diversas outras. Com a consultoria dos criadores do programa, Michael Dante Dimartino e Bryan Konietzko, algumas misturas de eventos são feitas de forma interessante, para assim poder correr com a trama e não passar por cima de muita coisa, só que infelizmente nem tudo sai como o planejado, e apesar da simetria de várias cenas, diversas mudanças são incomodas, principalmente nos momentos finais. Outro fator praticamente extirpado na adaptação é o humor natural e jovem do seriado, uma praia que Shymalan nem vislumbra alcançar. Poucos momentos fazem referência a este humor (como Katara congelando Sokka por acidente), mas eles são tão raros que nem vale apena rir deles. Mesmo Appa e Momo perdem toda sua presença, renegados a meros figurantes.

No geral, como filme, “O Último Mestre do Ar” tem muitos problemas. O início é promissor, com personagens sendo apresentados e revelações anunciadas. Já o segundo ato é maçante, pois perde seu foco em meio ao desenvolvimento da trama dos mocinhos e dos vilões, culminando no terceiro ato, alicerçado primordialmente nas cenas de ação. Visualmente belo, os efeitos especiais são de encher os olhos. Toda manipulação de ar, água, terra e fogo são orgânicas e muito realistas, com sequenciais realmente arrepiantes. A desenvoltura dos golpes chama atenção, e todo balé das lutas é calcado no kata de diferentes artes marciais, como Baguazhang, Tai Chi, Hung Ga e Kung Fu Shaolin.

Diferente de seus outros trabalhos, a trilha sonora de James Newton Howard (“Sexto Sentido”, “Corpo Fechado” e “Sinais”) não alcança um nível satisfatório, ficando apenas na tentativa de emular trilhas de grandes épicos, como “Senhor dos Anéis” ou mesmo “Star Wars”. Já a fotografia de Andrew Lesnie (Trilogia “Senhor dos Anéis”) é competente, mas foge totalmente da paleta de cores vivas da série original, ficando apenas na frieza do azul acinzentado.

O time de atores é, em sua maioria, constituído de caras novas e inexperientes. Aang é interpretado pelo campeão de artes marciais de Dallas, Noah Ringer. Escalado principalmente por suas habilidades de luta e sua semelhança com o Avatar, Ringer é limitado como ator e não desperta muito carisma. Seu Aang é bem diferente do seriado. Muito mais centrado e coeso, ele parece não precisar de muito amadurecimento, e seu jeito “moleque de ser” praticamente não existe. Katara e Sokka são vividos por Nicola Peltz e Jackson Rathbone (da série Crepúsculo). Ambos ficaram incrivelmente parecidos com os irmãos, só que apenas fisicamente, pois enquanto Katara está muito melancólica, Sokka está muito “racional”, sempre com o ar de guerreiro honrado, sem soltar praticamente nenhuma besteira.

Já o time do mal é encabeçado por Dev Patel (“Quem quer ser um Milionário?”) interpretando o rancoroso príncipe Zuko. Patel até que tenta usar bem os dilemas de seu personagem, mas não tem muito espaço dentro do atropelamento ironicamente entediante do segundo ato. Como coadjuvantes temos Shaun Toub como um Tio Iroh totalmente sem humor, mas com muita serenidade. Aasif Mandvi é o ordinário Comandante Zhao, também muito exagerado e canastrão. Para terminar, Cliff Curtis interpreta o Senhor do Fogo Ozai, personagem que nem sequer da as caras na primeira temporada.

Como resultado final, temos uma obra que, ao mesmo tempo em que homenageia “Avatar: The Last Airbender”, acaba errando em pontos primordiais. Para aproximar a série de seu estilo cinematográfico, Shymalan deixou tudo muito sério e frio, mas apesar de ter sido massacrado pela crítica internacional, o filme não chega a ser péssimo, mas não é muito mais que isso. Para aqueles que não conhecem Aang e sua trupe, não apreciar a obra parece ser um caminho certo, para aqueles que conhecem, fica uma sensação indigesta de que o longa não tem o “verdadeiro espírito” da série. Correndo o risco de não conseguir concluir a trilogia, Shymalan dá outro tiro no pé, e literalmente adormece cada vez mais em seu torpor sem criatividade.



Crítica de Cinema: A Origem

Posted by Programa Enter

Por: Ronaldo D'Arcadia
Simplesmente arrebatador. O filme “A Origem” é uma obra prima a ser reverenciada.

Parece que a antiga lógica “BlockBuster vs. Arte” vem perdendo força nos últimos tempos. Doa a quem doer, é verdade. E um possível marco simbólico desta realidade é o filme “Avatar”, feito com milhões de dólares, para gerar bilhões de dólares, e ainda assim ser genial em termos de criatividade cinematográfica (e mesmo assim não levar quase nenhum Oscar. Vai ser hipócrita em outro lugar!). “A Origem” é um exemplo dessa “nova vertente” do cinema mundial, onde um diretor brilhante, neste caso Christopher Nolan, consegue unir todos os elementos necessários para o sucesso ($$) nos dias hoje, e ainda ter o luxo de contar uma história inesquecível e de qualidade.

O “sonho” começa com Cobb (Leonardo DiCaprio) e Arthur (Joseph Gordon-Levitt) tentando roubar uma informação do misterioso Saito (Ken Watanabe). Infelizmente a linda Mal (Marion Cotillard), mulher de Cobb, estava neste “sonho” também, e sua tendência é sempre estragar as coisas. Só que Saito tinha uma carta na manga: Tudo aquilo foi um engodo, apenas um teste para Cobb e sua equipe. Ele precisa de um tipo inusitado de serviço, por isso queria ver o resultado com seus próprios olhos, mesmo que eles estivessem fechados. Sim, como podem ter percebido estou falando do mundo do inconsciente. Cobb é um especialista em invasão de sonhos. Como isto é feito? Que tipo de tecnologia eles usam para isso? Não é explicado, e particularmente isso pouco importa, é outra história.

Encurralado pelo poder de Saito, homem rico e influente, Cobb aceita o serviço, que tem uma pequena particularidade, ele não precisa roubar nenhuma informação, ou melhor, nenhum segredo, ele precisa plantar algo, algo forte o bastante para mudar destinos e nações: uma idéia. O alvo é Robert Fischer Jr. (Cillian Murphy), herdeiro de uma mega corporação. O objetivo: fazer com que ele divida sua empresa após a morte do pai. Uma estratégia corporativista dos tempos modernos.

A missão não é fácil. Aparentemente se falamos “Não pense em um elefante”, logo imaginaremos um, ou seja, a mente sempre irá perceber quando é induzida a acreditar em uma coisa. Talvez manipulação fosse um caminho mais certo, só que bem mais demorado. Embora todos duvidem que tal coisa possa ser feita, Cobb afirma o contrário, mas para que isso funcione seria preciso ir bem fundo, um sonho dentro de outro sonho, dentro de outro sonho. Pode ser feito, mas pelo fato de ser muito instável, é preciso sedativos pesados. Dentro de um sonho você sente dor, só que ao morrer apenas acorda, mas se estiver sedado você só acordará quando o efeito da droga passar, e nesse meio tempo, em que está morto, você irá para algum lugar de sua mente onde não gostaria de estar. No sonho o tempo é lento, cinco minutos são quase uma hora, e quanto mais profundo você vai, quanto mais sonhos você imerge dentro de um mesmo sonho, mais lento fica o tempo, sendo que horas podem se tornar anos.

Nesse local inusitado, todas as particularidades do subconsciente de quem tem o sonho invadido são projetadas de formas simbólicas, como por exemplo, segredos, que são protegidos em cofres e bancos. Mas uma idéia, essa precisa ser inserida dentro de uma verdadeira fortaleza.

O conceito de “A Origem” é brilhante. Sendo impossível evitar uma comparação prematura, o longa se assemelha a genialidade por trás de “Matrix”, mas em momento algum disputa com a obra no quesito criatividade. Com uma direção simplesmente inspiradora, o visual é arrasador, assim como suas cenas milimetricamente elaboradas. O trabalho de Nolan com certeza é dobrado, devido aos problemas encontrados ao se filmar com IMAX (peso da câmera, enquadramento, ruído), mas a qualidade é impressionante e o resultado na tela grande incomparável. Apenas poucos por cento de um rolo de filme IMAX são salvos na pós-produção, mas este mínimo é o suficiente para entregar a mais perfeita definição que existe hoje, em 70 mm. Utilizando sabiamente o slow motion e efeitos especiais incríveis, o diretor cria seqüências de literalmente tirar o fôlego, sendo os momentos finais do longa, um dos atos mais tensos do cinema. Acompanhamos em tempo real três cenários diferentes, onde todos os personagens estão inseridos ao mesmo tempo, e cada atitude, movimento ou mesmo som, influenciam na realidade destes locais.

Todo escrito por Nolan, o filme invade e reinventa o mundo dos sonhos sem ao menos pedir licença. Somos informados que, com a aparelhagem certa é possível entrar nos sonhos de alguém, podendo manipular quase tudo. Existe um construtor, interpretado no filme pela jovem Ellen Page. Esta arquiteta do inconsciente tem o trabalho de planejar os cenários: prédios, ruas, pontes, e então a mente preenche os detalhes. Enquanto treina suas habilidades em uma simulação, podemos ver a grandeza e o poder que existe em suas mãos, quando uma cidade toda se dobra como uma folha de papel. Já as pessoas que povoam este mundo ilusório surgem do subconsciente do sonhador, rostos familiares, projeções de sua vida, ou mesmo verdadeiros pesadelos.

A trilha sonora é a cereja do bolo. Ela é composta pelo mestre Hans Zimmer, que tem em seu currículo desde “O Rei Leão” a “Gladiador”, da Trilogia “Piratas do Caribe” a nova trilogia “Batman” (assim esperamos). Seus temas sombrios, hora melancólicos, e por muitas vezes arrepiantes, são fundamentais para o ritmo e desenvolvimento da trama. Tudo fica melhor com as trilhas de Zimmer.

O astro você conhece. Leonardo DiCaprio, que parece não errar nunca, talvez devido ao fato de sempre escolher os melhores trabalhos. Ele entrega novamente um homem perturbado, que tem uma relação difícil com sua esposa e um passado muito complicado. De tão fortes, seus sonhos cheios de marcas dolorosas acabam sendo um grande problema para seu trabalho. Ellen Page também está excelente como a arquiteta já citada, Ariadne. Com simplicidade ela interpreta esta estudante que tem a possibilidade de levar a “pura criação” aos limites mais extremos. Meiga e muito inteligente, sua participação na equipe é de fundamental importância para o resultado final. Joseph Gordon-Levitt chama atenção com o fiel escudeiro Arthur. Ator experiente, Levitt começou cedo, e somente agora sua carreira está recebendo o devido valor, fato que pode ser consumado no próximo Batman (Uma charada para vocês). O time de apoio conta ainda com Tom Hardy como o falsário Eames, Ken Watanabe como o poderoso Saito, Cillian Murphy como o triste Robert Fischer Jr., alvo da empreitada principal. Marion Cotillard emprega todo seu talento como a assustadora e perturbada esposa Mal, uma das vilas mais inusitadas dos últimos tempos. Personagens perfeitamente construídos e explorados, atores empolgados e inspirados pela incrível história.

Isso pode parecer besteira, mas quando saí do cinema após assistir “A Origem”, olhei para tudo de uma forma diferente. Durante aquele tempo, ainda anestesiado pelo filme, tudo realmente parecia um sonho, todas as pessoas, os carros, os prédios, que poderiam naquele momento se dobrar sobre mim, e eu acharia bem normal. O sentimento passou, mas não o deslumbre da obra. “A Origem” é um filme que, além de te fazer pensar, te faz sentir. Depois dos excelentes “Amnésia”, “Insônia”, “Batman Begins/Cavaleiro das Trevas” e “O Grande Truque”, Cristopher Nolan realiza sua obra prima, pelo menos até o momento. Com um final incrível, fica a pergunta: tudo é sonho ou realidade? Para está questão não existe certo ou errado, tudo é possível, até um peão que não para nunca de girar.